Contrição

Achei que eu tivesse perdido meu lado safada. Ou guardado entre a vergonha e o medo. Primeiro, que o prazer ofertado no mercado anda em baixa e sexo burocrático nunca fez minha cabeça. A burocracia pro sexo também não. Segundo que, de alguma forma, desde que criei essa página, a burocracia se apossou da minha escrita e eu fui perdendo o tesão de escrever. Saber que algumas que me conhecem leriam fazia com que eu me sentisse exposta e vulnerável. 

Isso sem falar no espanto das pessoas quando aparece algum comentário em relação aos contos. E as pessoas se espantam. Se espantam em ouvir ou ler que prazer é divino e não existe porque ter  menor vergonha dele. Homens se espantam com a liberdade e aí vira um desafio. Mulheres se espantam, as vezes, com o próprio interesse pela coisa quando ainda não tomaram posse do próprio desejo. 

Neguei a mim mesma que eu adoro sentir o gosto doce que lubrifica a alma. Saborear a pele enrijecer na ponta da língua e derreter com a antecipação do preenchimento. Que sentir o ventre inchar e preparar a inundação quando transbordo é uma das sensações mais deliciosas do mundo. Que desafiar os desejos, meus e alheios, é um esporte delicioso de treinar em diversas modalidades. 

Fingi. Fingi que não é de quatro,  empinada e implorando para ser possuída, que comando e entrego o poder a quem souber fazer bom uso dele. Que não é de pernas abertas, exposta, melada, brilhando, entre urros e gemidos, que me sinto mais fêmea ou tiro a máscara e permito que meu ser passeie livremente. 
Ou, quando tomada com intensidade, encontro na entrega o poder escondido em mim e, como fênix, renasço das cinzas no turbilhão de energia catalisado entre minhas pernas. Fingi que explorar extensas áreas de pele e ver o som que o corpo produz não era a música que meus dedos mais gostavam de produzir. Fingi que eu não desejava duas, três, quatro bocas sobre meu corpo sem a menor obrigação de retribuir. Que a curiosidade não permeava minha mente cada vez que o desejo estava lá, reconhecido na ponta dos dedos, melando tudo. Que não é entre "vagabundas" e "filhadaputagostosadocaralho", quando o ventre engole cada estocada, que eu derreto pedindo mais. E que as amarras não aguardam a confiança e entrega se fazerem presentes para abrir mão de qualquer controle. 

Logo eu, que nem acredito em pecado, pequei. Porque pecado, para as histórias, é o silêncio de não serem contadas. Engoli minhas palavras com medo do julgamento alheio e sequei minha nascente daquilo que é como o próprio ar que inspiro e expiro dos pulmões. Fechei a porta da jaula do ávido monstrinho que mora em mim e sempre tem fome, apaguei a luz e saí. Talvez, porque eu me sinta perigosa quando ele bota a cara na janela ou arranha as paredes querendo brincar. Aceitei pouco, joguei por baixo. E o pior, ofertei m nos ainda. Guardei o meu tesão só pra mim e amarrei as palavras na gaveta da mente; me afoguei no silêncio da realidade onde a memória manda em tudo. 

Talvez, caiba desculpas. Às minhas palavras, à fantasia, ao tesão e à memória, claro. Nem tudo é verdade, mas nem toda ilusão é mentira. Não a você. No fundo eu e você sabemos que você nunca me deu nada, mas tomou quando bem quis ou tentou beber dessa água quando sua fonte secou. E está tudo bem. Isso também me excita, assumo. Atiçar desejos e permear vontades e homenagens me deixa curiosa. Volte lá e satisfaça seu prazer quantas vezes forem necessárias e possíveis. É daí que as palavras surgem e o desejo se faz presente. Deleite-se, escorra, jorre. Descubra o que faz suas pernas tremerem e o coração pular do peito pelo medo do descontrole. Não faça como eu e traia o próprio instinto de dividir a saciedade do corpo, e às vezes, da alma também. O prazer também faz morada no carinho. 

Nem faça como eles e se espante. Pelo contrário. Aproveite cada nova sensação, cada novo desejo e deixe-os passear livremente até que alguém sorria para eles. Não faça daquilo que deveria ser troca, desafio. Nem reduza safadeza a algo insignificante, porque a depravação mora em todos nós e, no grande hotel de emoções e vontades suprimidas que somos, você só precisa descobrir em qual quarto a sua está. Eles que lidem com isso. Ou nem lidem e passem vontade. Ou criem aquela imagem espetaculosa que só cabe em quem não dá vazão à própria mente ou tem medo de ser engolido pelo próprio monstro, ao invés de deixar que te salve. 

Minha mente engole e minha boca mastiga. Cospe. Chupa. Lambe. O ventre lateja com fome e depois treme prestes a explodir. A bunda implora uma roçada gostosa ou o avanço habilidoso naquele que não se pede, mas conquista. O desconhecido faz o sangue pulsar nas veias, tornando alguns lugares mais quentes do que outros. 

Eles que lidem com a própria mente. E a mentira hipócrita que contam a si mesmos. Acreditem no que quiserem, atribuam o valor que acharem melhor. Pouco me importa.  

Posso responder apenas pela minha e sempre que eu bato à porta, ela abre, mesmo que a palavra não sirva de colchão. Me espera à porta, às vezes cheirosa, às vezes suja. Bem vestida ou nua. Sozinha ou acompanhada. Dominadora ou submissa. Com ou sem brinquedos. Curiosa, depravada ou recatada. Com aquela performance olímpica ou o deleite da preguiça de um domingo chuvoso. Muito além de gênero e focada no prazer que escorre das pernas, e dos dedos. 

Desculpo-me com eles e as palavras brotam. 

Transpiro desejo. E assumo. 

Um comentário:

Prazer indescritível ter vocês aqui, mas antes de ir, conte-me seus segredos.

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